gtd

Ferramentas para escrita colaborativa: notas de revisão (Word) vs controle de versão (Git)

Na Lexana trabalhamos essencialmente com dados. Mas também escrevemos muito texto e enfrentamos sempre o desafio de sermos produtivos de forma colaborativa. Se você está lendo este artigo, deve estar, assim como eu, buscando aprimorar sua produtividade e disposto a melhorar seu processo de escrita em coautoria.

O primeiro passo será separar em etapas o processo de escrita, de modo que o texto não encontre gargalos do brainstorm até a publicação.

Então o destino importa. O caminho natural para escrita para publicação web é o markdown. Já o latex (LaTeX para os puristas) é o caminho natural para escrita, principalmente científica, voltada a papel ou pdf. Apenas para nivelar a discussão, vamos lembrar que o markdown (criado em 2004) e o latex (criado em 1985) são formas de escrita cuja formatação está embutida no próprio texto, podendo ser abertos em editores de texto simples. Já o formato do Word só é aberto corretamente no próprio Word, que é um programa da Microsoft.

Se você pretende publicar nos dois suportes, está complicando o processo de decisão sobre qual caminho seguir, pois o markdown e o latex foram concebidos para objetivos distintos.

Para uma discussão aprofundada, veja esta série de artigos.

Mas a discussão hoje não é bem sobre esse ponto. O que pretendemos ajudar a resolver é o problema da coautoria, em um mundo no qual a maioria das pessoas está acostumada a trocar arquivos Word por email. Quero dizer, as pessoas da área do Direito estão acostumadas com isso pelo menos.

O problema está em que o Word (e os outros editores de textos) trabalham com o paradigma das marcas de revisão e comentários. Se você retirar essa camada de anotação dos revisores, eles terão muita dificuldade em fazer um trabalho essencial para o seu texto. E é justamente isso o que se faz quando você diz: "Prezado revisor/coautor, está aqui uma ferramenta de controle de versão. Sinta-se à vontade para alterar o texto."

Se você é um hacker que trabalha apenas com controle de versão (Git, por exemplo), sua cabeça pode não confundir essas abordagens. Mas é quase certo que, se você não está escrevendo código e seu revisor é um acadêmico com origem alheia ao domínio tecológico (um jurista, por exemplo), a simples falta de uma interface gráfica de controle das alterações do texto poderá fazer o trabalho de revisão parar. Isso é a última coisa que você quer.

Então, como compatibilizar o mundo da revisão por anotação (mais conhecido pelo pessoal de humanas) e o mundo do controle de versão (preferido pelo pessoal de exatas)? É preciso dar ao seu revisor um Word que não seja o Word.

Opções para LaTeX

Se você optar pelo latex, existem dois produtos que chamam especial atenção: Overleaf e Authorea. Ambos são plataformas web com versionamento de texto, sem deixar de lado as marcas de revisão e comentários. Realmente é uma proposta interessante.

A maior diferença é que o Overleaf é praticamente exclusivo para latex, demandando uma boa ginástica de plugins, conversores e outros apoios técnicos para quem não domina a tecnologia. Já o Authorea trabalha com blocos de textos que podem ser escritos em vários formatos, sejam latex, markdown ou outros formatos.

Vamos dizer então que o Overleaf está em um extremo, enquanto o Authorea está no meio do caminho, rumo ao mundo exclusivo do markdown, que é uma sintaxe muito mais simples - e limitada. Mas se você não precisar diagramar algo muito complexo, uma solução limitada é exatamente o que procura. Para isso, existe o Penflip.

Opção para markdown

Um dos aspectos do Penflip é ser desenvolvido por uma pessoa só (ao menos é isso que o site diz). Se você tem simpatia por esse tipo de organização, veja o blog de fundador do Penflip, Lauren Burton.

Aliás, notei que a última atualização do Twitter do Penflip é de 2014, enquanto o blog do desenvolvedor está atualmente ativo e trata de outros assuntos. Não é o que eu chamaria de boa notícia. O lado bom é que o Penflip parece seguir como um serviço zumbi por um longo tempo, o que me faz acreditar que a manutenção seja mínima. Da minha parte, aceito essa condição, mas mantenho cópia offline dos meus projetos, pois o Penflip permite que você clone o repositório via Git. O chato é que essa não é uma opção para usuários que não dominam as ferramentas de Git, ou seja, quase todo mundo.

Talvez, por se tratar de um desenvolvedor solitário, o Penflip faça algumas opções únicas, como é sua possibilidade de trabalhar com um projeto maior, formado pela sequência de arquivos em uma pasta. Para mim essa é uma característica essencial, pois meus projetos tendem a ser vinculados a uma estrutura rígida ou tendem a demandar uma organização desse tipo por serem longos.

Se isso também é importante para você, boa sorte com o Penflip! Apenas esteja atento que ele é construído em torno de um genuíno conceito de controle de versão. Isso significa que seu revisor promoverá alterações em sua própria cópia e o gestor da versão orginal apenas aceitará ou rejeitará as propostas de alteração, consolidando o texto por versionamento. Só não se esqueça de salvar as alterações.

Além disso, a ferramenta de comentários ao longo do texto é um pouco escondida, pois só surge para o convidado a colaborar. O que existe, de forma mais explícita, é apenas um fórum de discussão para cada projeto. Essa é a regra quando se trabalha com esse tipo de ferramenta, razão pela qual - pessoalmente - mantenho as discussões paralelas em um chat. Mas é uma preferência pessoal.

Imagino que essa falta de usabilidade decorra do fato de que, por ser um editor baseado em Git, o que se espera é que o editor submeta alterações no texto. Ao submeter propostas de alteração, os comentários são enviados como se fossem acessórios. Essa é uma dinâmica muitos estranha para mim, além de ser diferente de plataformas verdadeiramente colaborativas, a exemplo do Draft.

Então, recomendo o Penflip. Mas saiba que você está entrando no mundo Git e que existem enormes concessões a serem feitas. No fundo, você estará trabalhando com uma sequência de arquivos e não existe nenhum conforto no autosalvamento. O conforto é mínimo ao renormar títulos, entre outras características típicas de soluções geek.

Bem, existem outras opções e podemos conversar sobre elas nos próximos posts. Você tem um caso de uso com sucesso? Ou tem alguma recomendação sobre como escrever em coautoria?


PS: Entre meus colegas do mundo do Direito, existem histórias sem final feliz de pessoas que compartilharam arquivos no Dropbox. Não existe segurança nessa rotina. Além disso, ficar nessa metáfora das pastas e arquivos é algo que impede um trabalho mais coordenado e granular. A propósito, é bom lembrar a origem do desenvolvimento do Git, que foram problemas na redação de código de computador de forma descentralizada.

Escrevo isso só para deixar claro que estou ciente de que são soluções distintas para problemas distintos. O Dropbox (centralizado) guarda a última versão do seu arquivo. O Git (distribuído) guarda todas as alterações de cada arquivo, permitindo entrar numa espécie de máquina do tempo do seu arquivo e dos clones dos outros. Ou seja, é algo muito mais poderoso. Não apenas isso, serve para solucionar outro tipo de problema.