inteligência artificial, profissões jurídicas

Inteligência artificial e o futuro das profissões jurídicas

Essa vai para os juristas. O Direito é nossa profissão e isso basta para compartilharmos de algumas preocupações. Entre elas, a preocupação da moda é saber se nosso trabalho será substituído por robôs. Por seu turno, esse tema gravita em torno de avaliações, algumas realistas e outras fantasiosas, sobre as potencialidades da inteligência artificial aplicada ao Direito.

Primeiro é necessário compreender o que é inteligência artificial. Para o fim deste post, ela será considerada como um campo computacional com sobreposição sobre as linguagens que dominamos pela visão, pela audição, bem como pela fala ou escrita.

As ferramentas de inteligência artificial se prestam, deste modo e em um primeiro momento, ao reconhecimento de imagens, de sons e de palavras escritas.

É intuitivo que, para o nosso mundo de palavras jurídicas, a inteligência artificial tenha especial aplicação no tratamento do escrito, seja ele nascido de palavras em tinta sobre papel ou, por exemplo, da conversão de um texto originalmente oral. O certo é que, uma vez escrito, o texto em linguagem natural pode ser trabalhado por computadores, aplicando-se sobre ele uma série de tratamentos para que surjam então novas camadas de informações mais estruturadas.

Metaforicamente, é como se um texto em formato Word (linguagem natural) fosse convertido e adicionado de informações em formato Excel (planilha), facilitando o cruzamento de diversas informações que também estejam organizadas da mesma forma. Essa é uma simplificação do assunto, que serve como ponto de partida para pensarmos como a mescla de tecnologias pode impactar o mercado de trabalho jurídico.

Ora, se um computador pode reconhecer linguagem natural, pode então automatizar uma tarefa. Mas as tarefas que o computador - hoje - consegue fazer são relativamente limitadas, por exemplo: classificar um texto em categorias, listar pessoas ou eventos presentes nesse texto ou mesmo identificar um sentimento positivo ou negativo nele. E tudo isso exige treinamento prévio.

Em outras palavras, um humano precisa registrar previamente uma série de categorias, pessoas, eventos e sentimentos no computador, associando esses glossários a textos reais. Depois, por similaridade, o computador, com a aplicação de fórmulas, terá a chance de continuar replicando com acerto as identificações que um humano fez um dia. A isso se chama aprendizado de máquina.

A inteligência artificial não tem nenhuma inteligência. O aprendizado de máquina também não tem nenhum aprendizado. No entanto, a máquina é capaz de replicar com grande velocidade atividades que emulam a forma de pensar do ser humano, fazendo registros por indução. E, como a máquina nunca esquece de nada, é bem capaz de que o aprendizado de máquina venha a desafiar boa parte das profissões jurídicas como as conhecemos hoje.

Com isso queremos dizer que, qualquer que seja a profisssão, não haverá espaço para humanos desempenharem tarefas simples, passíveis de automação pela forma descrita. Assim, é provável que a autuação e a classificação de um processo (ou seja, a identificação de seus temas) possa ser feita com o auxílio de máquinas.

Mas e as atividades de peticionamento e julgamento? Bem, essas terão que esperar um pouco mais para serem desafiadas pelos computadores.

Da mesma forma, ao que tudo indica, os advogados continuarão sendo eternamente necessários para o desempenho de atividades como negociação, aconselhamento, elaboração de estratégias e realização de sustentações orais, etc. Daí que, na prática, a inteligência artificial é hoje uma ferramenta de produtividade a serviço do advogado que desempenhe qualquer uma dessas atividades complexas.

As opiniões variam sobre quanto o mercado jurídico diminuiria com a plena adoção das tecnologias disponíveis, notadamente as associadas à inteligência artificial. Talvez seja prudente afirmar que isso represente potencialmente um ganho de produtividade de até um quinto, o que não quer dizer que o mercado seria diminuído nessa proporção. O que queremos dizer simplesmente é que a adoção de novas tecnologias gera, antes de mais nada, concentração pela eficiência.

Um advogado mais produtivo, em razão da adoção de avanços tecnológicos, não leva necessariamente a que outro seja desempregado, mas certamente representa um risco para aquele que não acompanhar inovações. Além disso, um advogado que acompanhe os avanços de seu tempo, será mais capaz de delegar tarefas para pessoas que ganham menos que ele - inclusive pessoas que não tenham formação jurídica.

Diante disso tudo, somos levados a crer que a incorporação da tecnologia disponível pelas profissões jurídicas ainda leve alguns anos. Até lá, o que veremos é uma concentração incremental, decorrente da aplicação de tecnologias já maduras em outros campos, mas que ainda sejam novidade para a atividade do profissional do Direito.